sexta-feira, 16 de maio de 2008

Dia 15 de maio – A high way daqui.

Hoje acordamos mais cedo, pois combinamos a saída para antes das 8h da manhã. Tomamos café (nenhuma novidade na comida) e fomos para a prefeitura entregar as notificações, para andar mais rápido pegamos as bicicletas dos pedreiros da obra do lado do hotel para chegarmos lá. Fizemos uma confusão com a papelada e acabamos enrolando um pouco. Voltamos para devolvermos as bicicletas e fomos para o porto. Chegando lá vi o que era o deslizador, um barco pequeno, uma espécie de cruzamento de voadeira com lancha. Minha perna bambeou e eu amarelei na hora. Fora o medo de estarem nos armando uma tocaia, afinal já tínhamos entregado as notificações. Fiquei sem coragem de encarar a estradona (no caso o Rio Purus) naquele veículo! Fiz a proposta de ficar na prefeitura vendo umas pendências, mas o pessoal insistiu, arranjaram 2 coletes salva-vidas (para 5 pessoas), e eu pulei no barco. O deslizador era da pastoral da criança, pois o do secretário estava com defeito, graças a Deus (em breve saberão porque). O “motorista” ligou o motor e eu olhei pro chão do barco de onde não desviei o olhar pra lugar nenhum. À medida que o tempo foi passando fui encarando a realidade (já tinha feito a merda de mudar de idéia de não entrar no barco) e o medo foi passando. Subimos o rio quase 2 horas, quando pedi para ir ao banheiro fazer numero 1. Paramos numa comunidade ribeirinha chamada São Sebastião. Vimos a realidade de perto, aliás, tocamos na realidade. Não tem como descrever o que vi ali, pois não há parâmetros para comparar com a realidade dessas comunidades (as fotos dirão muita coisa, mas não tudo). A nossa vida de cidade grande não serve como referência para o que vi ali. E foi só o inicio da viagem. Para chegar ao banheiro, temos que atravessar a lama por cima de trapichos (troncos que vão do rio até as casas, e são colocados sobre a lama, é a calçada deles), que vão até a escola. Fui ao banheiro, que fica afastado da escola em uma pequena palafita (todas as construções ribeirinhas são palafitas) com um furo no meio. Fiz ali o numero 1 e se tivesse com vontade de fazer numero 2 não teria feito, pois, apesar do mau cheiro, o banheiro era até limpo, mas é estranho. Continuamos subindo o rio por cerca de 1 hora. No caminho paramos na comunidade São Paulo para pedir para fazerem almoço para a nossa volta. No total subimos o rio por 3 horas até chegarmos numa comunidade chamada José Cezar, quando desembarcamos e passei o repelente. Ali vi um jabuti pronto para o abate, fiquei com muito nojo daquilo e com pena do bichinho com um talo enfiado no casco para ele não colocar a cabeça pra fora, já urinando de dor. Foi a escola mais desorganizada que vimos, o professor não é das pessoas mais higiênicas e cuidadosas. A água que eles bebem e cozinham nessas comunidades ribeirinhas é a própria água do rio tratada com cloro em pó. Apesar de tratada, ela não fica límpida (aquela história que aprendemos na escola que a água é incolor, inodora e insípida, não é a realidade de muita gente). Pegamos o caminho de volta e visitamos mais algumas escolas, e quando eu pensava que estava tudo bem, tudo ótimo, quase me divertindo, o secretário de educação resolveu entrar num igarapé para vermos uma comunidade indígena. Para entrarmos no igarapé tínhamos que ir ate o final de um lago enorme e nos embrenhar na mata. O secretário indicou ao “motorista” a entrada do igarapé e embrenhamos, para meu desespero. O secretário não se mostrou muito seguro de onde estava, e o barco ia cortando aquela caminho estreito, e a água era de cor escura (propícia para piranhas e jacarés), e a mata fechava, fechava, e o barco cortava o caminho e eu pedindo pelo amor de Deus pra voltar e o secretário indicando as entradinhas, e a mata fechava, e eu pensava na tocaia, de repente, o oásis... Chegamos numa comunidade indígena que a avenida central é uma pista de pouso, sim, um aeroporto... Impressionante aquilo. O nome da comunidade é Crispinho, e os índios são os “Palmari”. Eles moram em casas do mesmo modelo das comunidades ribeirinhas, só que tem até sobrado. Estava mais tranqüilo... Vimos a escola, conversamos com os índios e voltamos pro barco. O secretário resolveu trocar de lugar como motorista, como ele tinha dito antes que tinha a carteira pra navegar, eu sosseguei... até ele fazer a primeira curva. O cara não reduzia a velocidade, e o barco cortava a mata, a mata fechava, abria e o barco inclinava uns 30 graus a cada curva, e eu olhava feio pro secretario e o motorista (que estava sem as mãos no volante) ria, mas ele também estava com medo, pois segurava na borda do barco e embaixo do banco com força. Chegamos ao lago, até pegarmos o leito do rio... Me certifiquei que a correnteza estava mesmo a favor e continuei segurando embaixo do banco duro do barco, pois o secretário gosta de navegar com emoção. Paramos em outra comunidade e vimos mais uma escola. Essa escola (Gonçalves de Farias) estava mais arrumadinha, conhecemos o que eles chamam de fruta-pão, uma espécie de semente com gosto de batata, muito gostosa. Essas escolas das comunidades rurais e indígenas são multiseriadas, ou seja, são alunos de varias séries na mesma sala de aula e com o mesmo professor. Pra meu sossego o secretário não gostou do volante do deslizador e devolveu o barco para o motorista. Ao pegar o barco de volta o motorista advertiu o secretário que não se faz curva sem desacelerar o motor. Nesta hora agradeci a Deus pelo barco do secretário ter quebrado. Viajamos até São Paulo para almoçar. Foi a comunidade que ficamos mais tempo e mais próximos da realidade dessas pessoas. A casa de madeira abriga 7 pessoas, pois tem duas famílias morando até que a casa de uma delas fique pronta. A casa tem duas partes: a da frente, com telhado de metal e com temperatura elevada, com um quarto e uma sala, e a de trás, ligada por um corredor de madeira, onde fica a cozinha e mais um quarto, coberta com palha e temperatura agradável. A dona da casa tem 27 anos e 2 filhos, a cunhada dela tem 25 e 5 filhos (a conta não está errada, tem alguns filhos que moram na cidade). A aparência delas não é de pessoas que têm essa quantidade de filhos, são mulheres de corpo definido e magro. Como a comida não estava pronta (já era mais de 15h e 30min), ficamos conversando, os piuns (mosquitos) atacando, repeti a dose do repelente, e mesmo assim eles ainda picavam, a contragosto, mas picavam. O almoço ficou pronto em uns 10 minutos. Era galinha caipira, arroz, farinha e macarrão. A dona da casa pegou as panelas do chão e as colocou no chão (muito limpo) da palafita. Era a nossa mesa. Eles não possuem mesa, nem sofás, nem cadeiras para sentar. Estava muito gostoso, apesar das condições. Só estavam as mulheres na casa, pois os maridos estavam trabalhando da colheita de óleo de copaíba e andiroba (são óleos extraídos de arvores de madeira nobre que valem mais que a madeira e servem para medicamentos, são excelentes anti-inflamatórios). Perguntei a elas se elas preferem a vida na cidade ou na beira do rio e elas responderam que não trocam o rio pela cidade. Pagamos pelo almoço e voltamos para o barco de volta para a cidade. Não paramos mais em escolas, mas o vento estava mais frio e mais forte. O rio estava mais agitado. Parece que a viagem de volta foi mais longa, pois estávamos calados (quando conversamos o tempo passa mais rápido). Não tenho noção de quantos quilômetros andamos, pois o barco não tinha velocímetro. Só sei que estava tenso, quase deprimido de ver só água e mato. Até que avistamos a cidade. A viagem ficou excelente quando atracamos no porto e eu desci do barco. Corri pro hotel, com as pernas bambas e tomei um banho super demorado (a água não estava fria como de costume). Durante o banho refleti e vi que foi uma aventura gostosa, uma experiência que vai ficar guardada pro resto da minha vida e sou muito grato por ter tido esta chance de ver quantas diferenças existem nesse país que não são capazes de tirar a felicidade das pessoas. Mas não sei se tenho coragem de fazer outra aventura dessa. Depois do banho fomos ao restaurante comer um tambaqui grelhado. Estava maravilhoso! Estou passando muito bem com a comida aqui, já ganhei uns quilos comendo tambaqui todo dia. Como o dia foi tenso e eu enchi o saco dos colegas, tomei uma cerveja para agradá-los e para relaxar também. Voltamos ao hotel e capotei... Não lembro de mais nada.

Um comentário:

Etio Junior disse...

BAAAAAAAAARAAAAAAAAAAALHO!!!
QUE AVENTURA MAIS ÉPICA FOI ESSA!!!
Se fosse eu tinha dado meia volta ao ver o barco e falado pro povo que ficaria em terra firme mesmo!!!
Ainda mais tendo um secretário maluco desse como "motorista"...
SEM CHANCE...

Não achei as fotos que vc disse q ia postar!!!ou vc ainda não as postou??????
Onde que eh que eh q elas ficam?????

=D