Dia 16 de maio – O valor da educação.
Sonhei com muitas coisas essa noite. Só lembro que tinha uma música estranha. Acordei, era quase 6h30min daqui. Mas deitei e dormi mais um pouco e não é que a música do sonho continuou? Achei estranho. Acordei quando o despertador tocou e levantei na hora que o colega bateu na porta para pedir o creme de barbear emprestado. Fiquei mais um pouco na cama e fui tomar café na hora que todos foram. Nenhuma novidade no cardápio do café da manhã, só mesmo um hóspede que ficou nos contando histórias de garimpo. Ele representa fornecedores de material de construção e viaja rio acima e rio abaixo vendendo por atacado para as lojas das cidades. Fomos para a prefeitura para concluir os trabalhos, entregar as notificações que estavam faltando, tirar fotos com a servente que ficou nossa fã. Hoje as visitas foram nas escolas da cidade. Fiquei surpreso com o que vi, diferentemente das escolas da zona rural que eu já tinha visto algo parecido na TV. Por mais incrível que pareça, e por mais surreal que seja, as escolas daqui têm uma infra-estrutura milhares de vezes melhor que o do prédio da Prefeitura. As escolas PÚBLICAS daqui, em termos de organização, limpeza, conforto, recursos não deixam a desejar as escolas de Brasília, e, tenho certeza, são melhores que muitas e muitas escolas públicas do DF. Encontramos algumas coisas erradas, pois nada é perfeito, mas fiquei bem satisfeito com o que vi. Vimos algumas escolas pela manhã, almoçamos aqui no vizinho do hotel. Hoje pedimos “cadindicadum” e veio galinha caipira, carne de panela desfiada, tambaqui ao molho, arroz com cenoura, macarrão, saladinha de alface e cebola, feijão e Baréeeeaaaaammmmm!!! Adoro Baré! Comi um bocadinho de cada um (cadindicadum), voltamos ao hotel, ficamos um pouco, e fomos para a Prefeitura. Ficamos lá esperando o secretário de educação e, enquanto ele não aparecia, ficamos vendo as fotos e vendo e-mails, aproveitando a conexão que estava menos lenta. Aqui temos que amarrar a conexão para ela não fugir. Até que ele apareceu e fomos ver mais escolas na cidade. Visitamos creche também. Foi legal confirmar que as escolas têm mesmo estrutura melhor que a da Prefeitura. Lógico que o secretário mandou as pessoas darem uma maquiada nas escolas, mas nada que mudasse muita a realidade. E o prefeito faz questão de marcar a gestão dele: todas as escolas, sejam rurais ou urbanas, todos os prédios públicos têm a foto do cara. Voltamos à Prefeitura, depois de um tour pela cidade e lá ficamos até umas 16h. O tour pela cidade me fez perceber que as pessoas aqui não gostam de TV pequena, eles podem até não ter geladeira, mas a TV de 29 polegadas não falta. As construções da cidade são em sua maioria palafitas, até mesmo em terra firme. São casas de madeira, de todos os tamanhos, tipos e belezas, inclusive sobrados, com assoalho de madeira e telhas de metal. As pessoas andam de bicicleta ou moto. As que andam a pé tomam conta da rua e os poucos carros que transitam é que desviam das pessoas. É comum ver pessoas paradas conversando literalmente no meio da rua e os carros desviando delas. Tem muitas crianças na cidade, brincando pelas ruas e na praça. Voltamos ao hotel, o colega foi fazer as unhas, e eu fiquei aqui escrevendo o post da aventura. Tomei um banho e depois da chuva fomos comer um tambaqui (pra variar) acompanhados por um professor de arquitetura que está aqui no hotel, tomei um sorvete de coco da pizzaria aqui ao lado. O sorvete tinha cheiro coco, com sabor de amendoim, mas era feito de goma. Que sorvete ruim! Mas tomei assim mesmo. Agora vou ver o pânico na TV e dormir. Amanhã volto a Manaus.
Dia 17 de maio – A festa dos botos
Não tem como acordar tarde aqui. Mesmo aos sábados. Não sei se é a cama diferente. Não me lembro do sonho dessa noite. Levantei com o colega batendo à porta do quarto, tomamos café observando o movimento da vila abaixo do hotel e o movimento no rio. Hoje vi barcos maiores navegando e vi também uma família de botos fazendo festa na beira do rio. Nos dias anteriores vi alguns, mas vários juntos foi a primeira vez. Dizem que a carne do boto parece carne de boi. Deve ser boa, mas a caça ao boto é proibida (não é pesca porque boto não é peixe). Essa família de botos de hoje é de botos menores de pele acinzentada, os que eu vi no dia da aventura eram botos bem maiores, de pele vermelha. Vimos também o movimento na peixaria que fica na beira do rio: muita gente (muita gente aqui significa umas 15 pessoas) comprando o peixe que foi pescado há pouco tempo. Voltei ao quarto e fui arrumar a mala. Estou preparando o espírito para pegar outro vôo. O tempo está fechado e começou a chover. Espero que o céu fique bem azul antes das 16h. Ainda temos uma notificação a fazer ao secretário, estamos esperando a visita dele. (Agora escrevo do avião, indo para Manaus. São 18h48min. Vou continuar do ponto em que parei.) Resolvemos chamar o secretário, mas ele apareceu antes, fomos ao gabinete dele e imprimimos as notificações, voltamos ao hotel e, em seguida apareceu o secretario de finanças para entregar as copias da documentação que eles estavam devendo. Fomos ao clube municipal, jogamos dominó e comemos um peixe chamado (pausa para o lanche depois da turbulência, enfrentamos uma tempestade – medo!) matrinchã na brasa. Uma delicia o peixe. Não deixa a desejar o tambaqui. Às 13h30min voltamos ao hotel, fizemos o check-out e esperamos a hora do vôo. No horário combinado o secretário de educação apareceu e nos levou ao aeroporto. O vôo atrasou meia hora. (Agora estou aqui escrevendo, o tempo está um pouco instável lá fora, e estamos enfrentando pequenas turbulências. Devemos estar a meia hora mais ou menos de Manaus. Lá eu continuo a história.) Continuando, dizia que o vôo atrasou meia hora e, enquanto isso, o Bruno foi brincar com crianças que estavam próximas ao aeroporto. Eu e Rodrigues ficamos num bar que tem em frente ao aeroporto com o professor de design de móveis, o arquiteto de quem falei antes. O avião chegou lotado, mas tinha um grupo de mais ou menos 30 pessoas que desembarcaram em Lábrea, eles eram de uma missão, acho que de um projeto chamado “Rondon”, que faz preservação ambiental. Após o desembarque, foram as crianças e os idosos, entre eles uma senhora doente, com os olhos amarelados, acredito que ela estava com hepatite, mas a malaria também afeta o fígado, e uma jovem mãe com um bebê aparentemente prematuro e com os lábios leporinos. Embarcamos. Nunca fiquei com tanto medo como dessa vez: a saída de emergência do avião estava com o forro quebrado e dava pra ver a fuselagem do avião. Acho que era porque o vôo era a noite. Pelo menos a comissária de bordo era muito simpática. Meia hora depois, estávamos em Humaitá, em escala, entrou quem tinha que entrar, saiu quem tinha que sair e o avião decolou. Tinha um comandante de carona e uma passageira a minha frente que estava no avião desde as 11h50min vindo de Cuiabá, e já eram mais de 5h da tarde. Fiquei com pena dela. Chegamos em Manaus calorenta às 19h37min, fomos para o Hotel Solimões, o mesmo do fim de semana passado. Fizemos o check-in no hotel e escolhi a cama menos mofada. Não saí mais do hotel (esse laptop é terrível de escrever, às vezes vão faltar alguns acentos). Fui tomar o tão esperado banho em chuveiro elétrico: reguleii a temperatura chuveiro na água temperada e abri a torneira. Que decepção! Chuveiro fraco e água quente demais... Ninguém merece! Tive que tomar banho de cócoras para não me queimar, mas tomei meu banho quente! Depois de uma reunião no quarto para falar bobagem (foi quando descobri que íamos ter problemas com a hospedagem em Tefé), parte do povo resolveu sair e eu fiquei no hotel tentando dormir naquele muquinfo (o hotel se classifica como duas estrelas... cadentes).
18 de maio – Chá com stress, ou a primeira impressão é a que fica.
Dormi tão mal que vi a hora que o colega chegou da farra, e me lembro também que sonhei com minha irmã cantando e sendo aplaudida de pé em um teatro enorme. Levantei e fui ao Carrefour que fica na esquina oposta à rua do hotel comprar meu chá, pagar a fatura e comprar uma mala para roupa suja. Impressionante como, mesmo antes das 8h da manhã, já fazia calor naquele lugar! Voltei ao hotel todo feliz com meu chá. Tomamos café (tinha bolo de fubá com frutas secas, tapioca, laranja, mamão, melancia, ovo, pão francês, manteiga, café, leite, suco de abacaxi e se tinha mais alguma coisa eu não lembro). Pedi à cozinheira que esquentasse duas xícaras de água para eu fazer meu chá. Tomei duas xícaras de chá. Meu chá preto querido que fazia dias que eu não tomava e já estava ficando louco pela falta do meu chá. Quase não pensava em outra coisa a não ser no meu chá e já estava quase não falando em outra coisa senão na falta que meu chá faz. Lá em Lábrea eu não achei o meu chá, andei em vários mercadinhos, mas nenhum tinha o meu chá. Depois do café fomos ao banco e à feirinha de artesanato na rua do Carrefour e voltamos à geringonça do hotel. Terminei de arrumar a mala, fui tomar um banho (de cócoras novamente) e me arrumei pra esperar o povo. O táxi chegou e o colega ainda não estava pronto. Comecei a estressar... acertei o hotel, fiz o check-out e ficamos esperando o colega que ficou enrolado. Chegamos ao aeroporto, o taxista que tinha cobrado 30 reais, resolveu cobrar 35. Fiquei mais estressado com o FDP. Fizemos o check-in, povo foi almoçar e eu entrei, estressado na sala de embarque e fiquei sem almoçar. Mas não fez muita diferença, pois tinha comido muito no café da manhã. Passei na banca, comprei 4 gibis e logo o João chegou. Ficamos conversando um pouco sobre a estada na casa da mãe dele e logo o resto do povo entrou na sala de embarque. Até que eu estava tranqüilo, o tempo estava bom. Embarcamos e mais problemas... O avião, que tinha uma configuração, digamos, mais otimizada, para não dizer mais apertada, estava lotado e parecia uma sauna de tão quente que estava. Todos os passageiros estavam reclamando do calor. As comissárias informaram que era daquele jeito mesmo porque o avião estava em solo há muito tempo e, como o avião que íamos pegar estava atrasado, eles resolveram nos colocar neste. Mas com o tempo melhorou, só melhorou, não chegou a ficar ótimo. Troquei de lugar com o Bruno, que estava imprensado na janela e eu sou mais magro, e ficamos todos felizes. Eu estava bem tranqüilo, o vôo foi bom, apesar do calor e do aperto e eu ri demais com a Turma da Mônica! Ainda ficaram 2 gibis e meio para a volta. Uma hora e 20 minutos depois, estávamos descendo em Tefé. O aeroporto é maior e (muito) mais bonito e seguro que o de Lábrea (lá é possível invadir a pista por um buraco na cerca). Pegamos o táxi em direção ao hotel. Pausa para contextualização: lá em Manaus o pessoal ligou pra confirmar a reserva que tínhamos feito no hotel há 10 dias e descobriram que o hotel ocupou nossos quartos porque chegou uma delegação de magistrados (ou seriam procuradores? Não me lembro) e só tinha um quarto onde eles iriam nos enfiar (7 pessoas). Fim da pausa. O hotel era bom, mas não tinha lugar para todos. Depois da briga com o dono do hotel, ele resolveu nos levar para uma “pousada”. Fui acompanhar a colega na avaliação da pousada. Era um sobrado com três andares (dois de alvenaria e 1 de madeira). Ele abriu a porta e senti o cheiro de mofo... Ele nos mostrou as suítes (3, cada uma com uma cama de casal) e nos informou que no último andar tinha mais cinco quartos individuais, porém com banheiro coletivo. Pedi a ele que, caso ficássemos, limpasse o local. Ele perguntou se nós não nos incomodávamos que ele entrasse lá todos os dias a tarde para alimentar os cachorros (aff!). A colega resolveu ficar lá e eu voltei ao hotel com o dono para acertar com o povo. No caminho perguntei a ele como eram as acomodações no andar de madeira e ele disse que tinha cama. Eu já estressado falei pra ele que era o mínimo que um quarto tinha que ter e ele disse que eu não estava entendendo o que ele quis dizer, e eu, ironicamente, concordei. O safado ainda queria cobrar o mesmo preço do hotel “sede”. Lá chegando, o outro colega estava no carro com o taxista indo para outro hotel, resolvi ir para comparar. Chegamos ao hotelzinho e eu resolvi que era o ideal, pois pelo menos estava limpo e é parecido com o que ficamos em Lábrea, não tão bom e sem chuveiro elétrico também. Pegamos a colega que ficou lá na “pousada” e fomos todos para o outro hotel. Nos acomodamos e eu escolhi um quarto no térreo. Pra que? Pra aprender! Nunca escolham um quarto de hotel no térreo! Nunca vi tanto pernilongo junto (aqui eles chamam de carapanã)... Deixei minhas coisas, peguei um Baré, e lanchei o que trouxe do avião. Depois taquei veneno no quarto e saí com o povo. Andamos pela orla do rio Tefé e vi cenas de uma cidade imunda e miserável de espírito. Em Lábrea tinha pobreza também, mas as pessoas tinham brilho nos olhos, aqui em Tefé eu não vi isso ainda. Passamos por uma espécie de mercado, ou feira, parecia aquela cena de “Nova Trento” do filme Stigmata. Gente feia, a cidade suja, descuidada, cheia de cachorros doentes, bêbados, ratos e urubus. A única coisa que achei legal é que tem um teatro de arena bem bacana na beira do rio. Andamos um pouco, tomando cuidado para não sermos atropelados pelas motos que tomam conta da cidade, até que resolvemos parar de procurar um boteco e ir para o bar do hotel onde tínhamos feito a reserva problemática. Tomei duas águas, o povo ficou bebendo e conversamos e fomos procurar algo para comer. Comi um sanduíche com o Bruno, os outros colegas comeram churrasquinho. Voltamos ao hotel. Ao abrir a porta do quarto, senti que o cheiro do veneno estava forte e o quarto cheio de defuntos (os pernilongos que morreram). De repente, uma barata enorme apareceu, peguei o veneno e taquei na nojenta. Pedi para trocar por um quarto no primeiro andar e fiquei feliz. Além do mais, o quarto no térreo era ao lado do refeitório e, com a troca, fiquei afastado do barulho. Sobre a cidade: além da sujeira e do descuido, aqui predomina o transporte por motos. O que tinha de bicicleta em Lábrea tem de moto aqui. E o povo anda sem capacete, três ou quatro em cada moto, com crianças pequenas. Outra coisa que notei é que boa parte dos veículos, tanto motos quanto carros, não têm placa. As pessoas aqui têm os traços indígenas mais fortes. Em ambas cidades o aeroporto não reflete o que nos espera na cidade. Isso se confirmou em Lábrea que se mostrou uma cidade melhor do que o que o aeroporto representa, aqui em Tefé foi o oposto. Esta sensação talvez seja o que a máxima de que a primeira impressão é a que fica diz: talvez se tivesse vindo para cá antes de ir para Lábrea, teria tido outro sentimento. Amanhã começam os trabalhos. Espero não ser escalado para enfrentar uma aventura tipo “Indiana Ádson Jones na Selva Amazônica”. Sobre as fotos: ainda não as coloquei em nenhum lugar. Ainda não sei se vou fazer uma seleção, mas pretendo colocar todas em um fotolog. Acho que vou fazer isso em Brasília, pois são quase 1500 fotos até agora.
2 comentários:
Imagino como não deve ter sido a briga com esse gerentinho desse hotelzinho ridículo....
Quantas aventuras!!!
E só come peixe, que diaxo!!!E sempre os mesmos peixes, praticamente... As pessoas aí não conhecem carne de boi????
EU só como peixe... o povo daqui não curte muito, pois ja estão enjoados de peixe, então eles preparam outros tipos de carne também. Eles que comam carne, ou frango... eu fico bem feliz com meu peixe.
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